A proposta de levar a Selic a 7,5% virou assunto em toda parte. No debate em que foi testada, o próprio autor disse que ela não é para agora.
A proposta de André Lara Resende para os juros tomou os principais jornais, as redes sociais e as conversas de quem acompanha economia. Publicada em setembro no artigo Eu Acuso, ela prevê levar a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% em aproximadamente 12 meses, ganhou apoio político e levou a Fazenda a afirmar que nenhum tabelamento de juros está em discussão.
Tirando a poeira midiática, a ideia é bem menos sensacionalista do que parece, a começar pelo que o próprio autor disse sobre o momento de aplicá-la. Em outubro, o CEBRI, centro de estudos de relações internacionais sediado no Rio de Janeiro, publicou uma conversa de cerca de 2 horas entre Lara Resende e o gestor Luiz Orenstein, com o tema "Juros do Banco Central: falsa racionalidade?". Depois de apresentar a proposta, ele ouviu as objeções de Orenstein sobre câmbio, contas públicas e confiança nas instituições. Na resposta, concordou com a gravidade da crise institucional e fez uma ressalva que muda a leitura de todo o debate:
"Eu inclusive não estou sugerindo que isso seja aplicado hoje."André Lara Resende · CEBRI Conversa · assista ao trecho
Ele explicou que seu papel é pensar a proposta e, instantes depois, foi além: "Muito provavelmente, eu diria isso, é hora de aplicar isso hoje com essa anomia institucional, provavelmente não." O autor continua defendendo a ideia, mas ele mesmo condiciona sua execução a um ambiente que considera ausente hoje. A conversa completa está no canal do CEBRI, e esse trecho aparece por volta de 1h11min.
Quem estava naquela mesa?
André Lara Resende é um dos formuladores do Plano Real, foi diretor do Banco Central e presidente do BNDES. Poucos economistas brasileiros têm tanta autoridade para questionar o consenso sobre juros.
Quem o contrapôs foi Luiz Orenstein, sócio da Dynamo, que antes fez carreira no BNDES. Fundada em 1993, a gestora tem no Dynamo Cougar um dos fundos de ações mais antigos e respeitados do país. De janeiro de 1996 a outubro de 2026, o fundo multiplicou o capital por cerca de 389 vezes, antes de impostos, enquanto o Ibovespa multiplicou por cerca de 37. São quase 21% ao ano, contra pouco mais de 12%, com volatilidade menor que a do índice no período: 19,78% contra 30,10%.
Os dois são amigos há décadas, e foi essa relação que tornou a conversa tão franca.
O que a proposta de Lara Resende acerta?
O diagnóstico merece ser levado a sério. O custo médio da dívida pública chegou a 12,68% ao ano em junho, o equivalente a 10,5% do PIB. A economia não acompanha esse ritmo: em 2025, o PIB cresceu 2,3% em termos reais. Mesmo somando a inflação, o crescimento nominal fica em cerca de 7%, segundo o próprio Lara Resende, e a dívida segue crescendo mais rápido que a renda do país.
Um PIB crescendo 7% acima da inflação, algo muito distante da nossa realidade, ainda não bastaria. Com a inflação em torno de 4,58%, seria preciso um crescimento real perto de 8% ao ano apenas para a dívida parar de subir em relação ao PIB, e isso sem contar nenhum déficit nas contas do governo.
Para uma família, seria como ter uma dívida que cresce 12,7% ao ano enquanto a renda aumenta 7%. Mesmo sem gastar um real a mais, a conta pesa mais a cada ano.
A mesa concordou com o peso desse problema. A divergência surgiu quando a conversa passou do diagnóstico para o remédio.
Quais foram as objeções de Luiz Orenstein ao plano de Lara Resende?
Orenstein elogiou a revisão teórica e defendeu a ideia de juntar as políticas fiscal e monetária em um mesmo conselho. Em seguida, foi direto aos pontos em que considera a proposta menos sólida, e fez três objeções.
A primeira objeção de Orenstein é o câmbio. Ele contou que entregou o texto à equipe da Dynamo e perguntou o que fariam se o plano fosse implementado. A resposta foi: "Na abertura a gente compra tudo de dólar que a gente conseguir comprar." Lara Resende chamou essa reação de chantagem. Orenstein brincou que o termo não é muito carinhoso e rebateu que ela "de fato vai acontecer". Para ele, os US$ 350 bilhões em reservas protegem menos do que parece, porque cerca de 10% estão em ativos menos líquidos e exportadores e importadores tendem a reforçar o movimento numa corrida ao dólar.
A segunda é a percepção fiscal. Orenstein questionou se Lara Resende não estaria dando importância de menos ao tema. Lembrou que os juros longos caíram de 14% para 12,5% após o primeiro turno, apenas porque a corrida eleitoral favoreceu quem prometia economizar. Mesmo que a tese do paper reduza o peso do déficit primário, argumentou, os preços continuam reagindo a ele. O que veio depois do segundo turno reforça o ponto: o Prefixado 2032 chegou a 15,78% em um único pregão.
A terceira é a credibilidade. Toda a engenharia depende de um novo Conselho Fiscal e Monetário em que o mercado confie, e Orenstein descreveu o momento institucional do país como anomia. Ele também considerou que o spread de segurança de 2% poderia ser maior.
Lara Resende respondeu a cada ponto. Sobre o câmbio, argumentou que o diferencial continuaria favorável ao real mesmo com juros mais baixos: "O mercado financeiro é tudo menos burro para ganhar dinheiro." Para ele, o investidor só compraria dólar se achasse que todos os outros também comprariam. Sobre o spread, admitiu: "Eu chutei." Sobre as instituições, concordou com a gravidade da crise e lembrou o Cruzado para concluir que "nenhuma ideia boa resiste a circunstâncias tão desfavoráveis".
O que essa discussão pode mudar no Copom?
O Copom decide na quarta-feira, 4 de novembro, e as opções negociadas na B3 indicavam 68,8% de probabilidade de manutenção. As razões citadas pelos bancos são a incerteza fiscal, o câmbio, o petróleo e a piora das expectativas de inflação.
A proposta pode somar uma camada a esse quadro. Com um plano de corte acelerado em circulação e a autonomia do Banco Central em debate, um corte agora poderia ser lido como sinal de flexibilidade justamente quando o comitê precisa reforçar credibilidade. Essa pressão tende a favorecer a manutenção da taxa, ainda que o peso de cada fator só possa ser estimado.
Como isso afeta quem investe no longo prazo?
Enquanto a dúvida sobre o regime monetário persistir, os juros longos podem seguir carregando prêmio de risco, e até subir mais.
O Tesouro IPCA+ com juros semestrais de 2035 oferecia IPCA + 7,86% em 30 de outubro, depois de tocar 8,36% em julho. A cada R$ 100 mil aplicados, a taxa atual leva a cerca de R$ 190,7 mil em poder de compra de hoje até 2035. A 8,36%, seriam R$ 198,3 mil. As duas contas são antes de imposto e custódia e supõem o reinvestimento dos cupons à mesma taxa.
Quem já tem o título veria a marcação piorar com uma nova alta, mas mantém a taxa contratada se levar até o vencimento. Quem tem dinheiro novo e horizonte compatível contrataria uma remuneração real maior. O risco fica com quem precisa vender antes do vencimento, porque aí o preço do dia passa a mandar no resultado.
Vale então separar duas perguntas: se Lara Resende tem razão sobre os juros e o que a carteira deve fazer enquanto isso não se resolve. Revise quanto do seu patrimônio depende de um único cenário para a Selic, e assista ao debate inteiro antes de formar opinião sobre o plano.
Glauber Sá é Estrategista Financeiro, CFP e Consultor CVM, fundador da Akros Consultoria de Investimentos, consultoria independente registrada na CVM.
