Quem assumir em janeiro herda as mesmas contas. Veja como ler três indicadores oficiais e entender, sem economês, o que vem pela frente para a economia e para o seu bolso.
Na reta final da campanha, todo candidato tem um número para mostrar. Um diz que deixou as contas em ordem. Outro diz que herdou um rombo. Muitas vezes os dois citam dados verdadeiros, e o eleitor continua sem saber em quem acreditar.
Existe um jeito de sair dessa confusão sem depender da opinião de ninguém, inclusive a minha. Todo mês, o Banco Central publica as estatísticas fiscais do país, de graça, no próprio site. Três números dessas tabelas bastam para entender o que aconteceu com as contas públicas e com a dívida pública brasileira nos últimos 20 anos e, principalmente, o que espera quem tomar posse em janeiro.
Para ler esses números, pense num médico que trabalha por conta própria. Ele atende bem, fatura bem e vive bem: casa boa, carro novo, escola dos filhos, viagem nas férias. Para os amigos, é um caso de sucesso. Mas há alguns anos ele pegou um empréstimo grande em outro banco, e é ali que mora a parte da história que ele não conta.
O governo pode dizer que economizou e ainda assim deixar a dívida maior, porque os juros não entram no "azul" dos discursos. Em 2025, o Brasil gastou cerca de R$ 20 de cada R$ 100 arrecadados só com juros. Três números do Banco Central mostram o que o próximo governo herda, seja ele qual for.
O que é superávit primário e por que ele engana?
Todo mês, o médico olha só o extrato do consultório. Ali entra o que ele fatura e saem aluguel, secretária, material e a retirada que sustenta a família. Se sobra dinheiro, ele diz que fechou no azul.
Nas contas do país, essa sobra se chama resultado primário: tudo o que o setor público arrecada menos tudo o que gasta para funcionar, sem contar os juros da dívida. Quando sobra, é superávit primário. Quando falta, déficit primário. É o número preferido dos discursos, porque é o extrato do consultório.
Em 2025, nem esse extrato fechou no azul. União, estados, municípios e estatais tiveram déficit primário de 0,43% do PIB, segundo o Banco Central. Ainda assim, o governo informou que cumpriu a meta do ano.
As duas afirmações são verdadeiras. A meta tem margem de tolerância e despesas que a lei autoriza descontar. O resultado efetivo conta tudo, e é ele que mexe na dívida.
Por que a dívida pública cresce mesmo com superávit?
O empréstimo do médico tem uma particularidade: os juros nunca saem do bolso dele. O banco simplesmente soma os juros ao saldo devedor, todo mês. Como não vê o dinheiro sair, ele fala com toda a tranquilidade que está no azul.
Só que o saldo cresce mais rápido do que a renda. A cada ano ele precisa de mais plantões para sustentar a mesma vida, e os juros passam a incidir sobre uma dívida maior. Por fora, uma vida boa. Por dentro, cada dia mais quebrado.
O governo faz exatamente isso. Ele não paga os juros com o dinheiro dos impostos: emite dívida nova para cobri-los. Por isso dá para falar em contas no azul com a dívida subindo. O número que desfaz essa ilusão é o resultado nominal, o que sobra ou falta depois de contar os juros.
Em escala de família, 2025 ficou assim. A receita do governo somou 39,3% do PIB, e os juros custaram 7,91% do PIB. É como se o médico faturasse R$ 50 mil no mês e:
- gastasse cerca de R$ 50.550 para tocar o consultório e a casa, R$ 550 a mais do que faturou;
- visse entrar mais cerca de R$ 10.100 de juros no saldo devedor.
No fim do mês, faltaram perto de R$ 10.600, que viraram dívida nova. Dito de outro jeito: a cada R$ 100 que o governo arrecadou, cerca de R$ 20 foram só para juros.
E ter sobra antes dos juros não resolve sozinho. Houve anos nas duas últimas décadas em que a sobra passou de 3% do PIB. Mesmo neles, a conta depois dos juros fechou no vermelho.
O tamanho da dívida em relação à renda
Dever R$ 500 mil é muito ou pouco? Depende de quanto o médico ganha. Por isso a dívida pública é medida em proporção do PIB, a renda do país em um ano.
A dívida bruta do governo geral, indicador usado nas comparações internacionais, estava em 71,7% do PIB em dezembro de 2022. Fechou 2025 em 78,7% e chegou a 82,9% em agosto de 2026, o dado mais recente. São R$ 11,1 trilhões.
O que move esse número é uma disputa entre juros e crescimento. Se a dívida cresce pelos juros mais rápido do que a renda do país, a proporção sobe, mesmo sem nenhum gasto novo. De janeiro a agosto de 2026, os juros acrescentaram 6,5 pontos percentuais à dívida bruta; o crescimento da economia tirou 3,6.
Nem toda dívida é ruim
Dívida, por si só, não é problema. Se o médico pega um empréstimo para comprar um equipamento que dobra os atendimentos, a dívida se paga: o faturamento novo cobre as parcelas e ainda sobra. O problema é quando o empréstimo paga um aluguel mais caro e mais funcionários, sem gerar um atendimento a mais. A conta cresce, a renda não, e no ano seguinte ele precisa de outro empréstimo para pagar o anterior.
"Se mais crédito é desejável ou não depende de o dinheiro emprestado ser usado de forma produtiva o suficiente para gerar a renda necessária para pagar a dívida."Ray Dalio · Principles for Navigating Big Debt Crises · 2022 (tradução livre)
A pergunta vale para o país: a dívida está comprando capacidade de gerar renda ou pagando despesa que se repete todo ano? Os números brasileiros respondem com pouca margem para dúvida.
- O investimento público, que constrói estrada, energia e infraestrutura, caiu para 2,71% do PIB em 2025. Em 2009, era 4,72%.
- No orçamento federal de 2026, 91,3% do gasto antes dos juros é obrigatório. Sobram 8,7% para escolher, e é dessa fatia que sai o investimento.
- Entre 2000 e 2017, o Brasil investiu em média 1,6 ponto do PIB por ano a menos que a média dos países da OCDE.
De cada R$ 100 que o governo gastou em 2025, menos de R$ 6 foram investimento.
O médico brasileiro está se endividando para pagar o aluguel, não para comprar o equipamento.
E a pergunta certa diante de qualquer proposta de campanha, de qualquer lado, não é se ela gasta muito ou pouco. É se o gasto aumenta a capacidade do país de gerar renda ou vira mais uma conta fixa.
Mas os países ricos não devem muito mais?
Devem. Pelo critério do FMI, que permite comparar países, a dívida dos Estados Unidos passa de 120% do PIB e a do Japão, de 200%. Mas o peso de uma dívida não depende só do tamanho. Depende de quanto ela custa e de a renda crescer mais rápido do que os juros.
Imagine três médicos que faturam os mesmos R$ 50 mil por mês, cada um com as contas de um país em 2025.
O médico brasileiro deve 2 anos de faturamento. Paga cerca de R$ 10.100 de juros por mês, e a dívida vence, em média, em 4 anos. Ela custa 10,4% ao ano, e o faturamento cresce 7,4% ao ano.
O médico americano deve 4 anos de faturamento. Paga cerca de R$ 5.800 de juros por mês, e a dívida vence, em média, em 5,8 anos. Ela custa 2,9% ao ano, e o faturamento cresce 4,9% ao ano.
O médico japonês deve 5,8 anos de faturamento. Paga cerca de R$ 280 de juros por mês, e a dívida vence, em média, em 8,6 anos. Ela custa 0,1% ao ano, e o faturamento cresce 4,4% ao ano.
| Médico que fatura R$ 50 mil/mês | Brasil | Estados Unidos | Japão |
|---|---|---|---|
| Quanto deve | 2,0 anos de faturamento | 4,0 anos | 5,8 anos |
| Juros por mês | R$ 10.100 | R$ 5.800 | R$ 280 |
| Quanto a dívida custa por ano | 10,4% | 2,9% | 0,1% |
| Prazo médio da dívida | 4,0 anos | 5,8 anos | 8,6 anos |
| Quanto o faturamento cresce por ano | 7,4% | 4,9% | 4,4% |
Fontes: FMI (Fiscal Monitor e World Economic Outlook de abril de 2026) e Banco Central. Cálculos do autor: dívida dividida pela receita do governo; juros do ano divididos pela dívida do fim do ano anterior; crescimento da economia somado à inflação; juros por mês na proporção da receita. Prazo médio: Tesouro Nacional para o Brasil e Banco Mundial (2024) para os demais.
O americano deve o dobro do brasileiro, e o japonês quase o triplo. Ainda assim, o americano paga pouco mais da metade dos juros por mês, o japonês quase nada, e os dois têm mais tempo até a dívida vencer. A brasileira vence, em média, em 4 anos, e cada renovação sai na taxa que a confiança daquele momento permite.
Há ainda a corrida entre juros e renda. Para o americano e o japonês, o faturamento cresce mais rápido do que os juros, e a dívida fica mais leve com o tempo. Para o brasileiro, os juros correm na frente: a dívida pesa mais a cada ano, mesmo sem gasto novo. Por isso o Brasil precisaria sobrar 2,1% do PIB por ano antes dos juros só para a dívida parar de crescer, segundo a IFI. Em 2025, ficou no vermelho.
O que quebra não é o tamanho da dívida. É dever caro, renovar rápido e gastar o dinheiro emprestado em coisas que não aumentam a renda.
Três coisas explicam esse preço:
- Moeda. O dólar é a moeda em que o mundo guarda suas reservas, o que garante demanda permanente por títulos americanos.
- Confiança acumulada. O Brasil ainda carrega a memória de hiperinflação, moratória e regras fiscais trocadas com frequência; a nota de crédito do país segue abaixo do grau de investimento.
- Juro real. Descontada a inflação, o juro médio da dívida brasileira passou de 5% em 2025, para uma economia que cresceu 2,3%.
Lá, dívida alta é um problema. Aqui, mesmo menor, já é um risco.
O que o discurso não mostra
No caso brasileiro, três detalhes deixam a conta de juros ainda mais sensível.
- Quase metade da dívida acompanha a Selic. No fim de 2025, 48,3% da dívida federal era corrigida pela taxa básica. Quando o Banco Central sobe os juros para conter a inflação, a conta do governo sobe junto. Pelas contas do BC, cada ponto a mais na Selic, mantido por 12 meses, aumenta a dívida bruta em R$ 55,9 bilhões.
- O prazo é curto. O prazo médio da dívida federal é de 4 anos. O governo volta ao mercado o tempo todo para renovar o que vence, e paga a taxa que a confiança daquele momento permite.
- Parte do alívio de 2025 veio do câmbio. A queda do dólar gerou ganho de R$ 105,9 bilhões nas operações cambiais do Banco Central, o que reduziu a conta de juros. Em 2024, o mesmo mecanismo tinha gerado perda de R$ 115,9 bilhões. Não é esforço fiscal, e pode virar contra.
A mesma régua para os últimos seis governos
Com os três números, dá para testar qualquer discurso, de qualquer lado. Aplicada aos últimos 20 anos, a régua mostra que nenhum período passa ileso.
- Lula 1 (2003 a 2006). Logo em 2003, a meta de sobra subiu de 3,75% para 4,25% do PIB, com corte de gastos. A sobra média foi de 3,5% do PIB. Ainda assim, não cobriu os juros em nenhum ano.
- Lula 2 (2007 a 2010). Em 2006, a Fazenda trocou de comando e a política mudou de ênfase, com o PAC em 2007 e a reação à crise de 2008. A sobra média caiu para 2,8%. Em 2010, R$ 31,9 bilhões da capitalização da Petrobras entraram como receita, cerca de 1% do PIB que não se repetiria.
- Dilma (2011 a 2016). A sobra encolheu até virar falta: em 2014 veio o primeiro déficit primário da série, de 0,57% do PIB. Em 2015, com recessão e juros de 8,46% do PIB, a conta depois dos juros ficou negativa em 10,34% do PIB, recorde histórico.
- Temer (2016 a 2018). Os déficits primários continuaram. A principal resposta foi o teto de gastos, aprovado em 2016 para limitar o crescimento da despesa.
- Bolsonaro (2019 a 2022). A pandemia levou o déficit primário de 2020 a R$ 703 bilhões. Em 2022 houve sobra de 1,28% do PIB, a maior desde 2011, mas a conta depois dos juros fechou com déficit de 4,68%. A dívida caiu sobretudo porque a inflação alta inflou o PIB em reais.
- Lula 3 (2023 a 2026). Déficits primários de 2,28% em 2023, 0,40% em 2024 e 0,43% em 2025. Com juros perto de 8% do PIB, a dívida bruta subiu de 71,7% para 82,9% do PIB até agosto de 2026.
A leitura honesta: a dívida só caiu de forma consistente com sobra alta e economia crescendo, ou com ajuda de inflação e receitas que não se repetem. Nenhum lado tem o monopólio da virtude, nem da culpa.
O que esperar da dívida pública no próximo governo?
Quem assumir em janeiro recebe a mesma calculadora. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, estima que o país precisaria de uma sobra de 2,1% do PIB por ano só para impedir a dívida de continuar subindo. Para 2026, a própria IFI projeta um déficit primário efetivo de cerca de 0,4% do PIB.
A distância entre os dois números, de 2,5 pontos do PIB por ano, é o tamanho do problema. Mantida a trajetória atual, a IFI projeta a dívida bruta acima de 100% do PIB em 2032.
Para fechar essa distância existem três caminhos conhecidos: gastar menos, arrecadar mais ou crescer mais rápido. Há um quarto, que ninguém anuncia em campanha: deixar juros altos e inflação fazerem o ajuste. Esse é pago por todos, sem votação.
O que muda para quem investe
A conta fiscal não fica em Brasília. Ela chega ao seu patrimônio por quatro portas.
- Juros. Enquanto o mercado duvidar do ajuste, vai cobrar mais caro para emprestar ao governo. O juro real alto dos títulos atrelados à inflação é menos um presente e mais um prêmio pelo risco. É o mesmo prêmio que pode ser convertido em anos de vida para os objetivos da família.
- Câmbio. Em momentos de desconfiança fiscal, o real costuma perder valor. Viagens, importados e objetivos em dólar ficam mais caros.
- Oscilação. Títulos de prazo longo são os que mais oscilam quando a percepção sobre as contas muda. Quem precisar do dinheiro antes do vencimento pode resgatar no pior momento.
- Quem recebe os juros. No fim de 2025, a dívida interna estava nas mãos de instituições financeiras (32,9%), da previdência (22,8%), de fundos de investimento (20,8%) e de estrangeiros (10,3%), segundo o Tesouro. Os juros que apertam o orçamento do país são os mesmos que remuneram o fundo e a previdência de muitas famílias. Juro alto pode estar bom no extrato e ruim para o país ao mesmo tempo.
Por isso, a pergunta mais útil para o investidor não é quem vai ganhar. É se cada objetivo da família está protegido em mais de um cenário: com ajuste e queda dos juros, ou sem ajuste e com juros altos por mais tempo. Uma carteira montada para um único resultado eleitoral é uma aposta, não um plano. É a lógica da alocação por objetivos.
Esse teste começa por enxergar a carteira inteira de uma vez: a consolidação do patrimônio em uma visão única e, a partir dela, uma carteira desenhada pelos seus objetivos com as Recomendações GBI.
Como conferir sozinho
O Banco Central publica as estatísticas fiscais no fim de cada mês; a próxima sai no fim de outubro, já depois da eleição. Abra o relatório e procure três linhas: resultado primário, resultado nominal e dívida bruta do governo geral em proporção do PIB. Com elas, qualquer promessa de qualquer governo pode ser medida pela mesma régua, que não muda de lado.
Dados do Banco Central, do Tesouro Nacional, do FMI e da IFI divulgados até 30 de setembro de 2026.
Glauber Sá é Estrategista Financeiro, CFP e Consultor CVM, fundador da Akros Consultoria de Investimentos, consultoria independente remunerada pelo próprio cliente. Passou quase 20 anos dentro do mercado financeiro.