No primeiro pregão depois do segundo turno, os títulos públicos devolveram a queda de três semanas e passaram do ponto em que estavam antes da eleição. O que essa reprecificação muda para quem investe com objetivo, e como estamos posicionando as carteiras.
Nas três semanas entre o primeiro e o segundo turno, o mercado se posicionou para um resultado que não se confirmou. Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o ajuste veio de uma vez. Juros, bolsa e câmbio bateram os limites de oscilação da B3 logo na abertura, e a bolsa precisou ampliar esses limites duas vezes antes das 10h.
No Tesouro Direto, que abriu com quase três horas de atraso, o Prefixado 2032 chegou a 15,78% ao ano e o IPCA+ 2050 a IPCA+7,64%, as maiores taxas da série desses títulos. Na sexta-feira, os mesmos papéis pagavam 12,89% e IPCA+6,42%. Para quem já tinha títulos longos, o preço do IPCA+ 2050 caiu 23,6% em um dia, e decidir o que fazer com a renda fixa após a eleição passou a exigir separar oscilação de perda.
Quem tem título público longo casado com um objetivo de longo prazo não precisa vender: a queda de preço só vira perda para quem vende antes do vencimento. Para dinheiro novo, um juro real perto de 7,8% acima da inflação é um patamar raro, que pede entrada em etapas, risco soberano e uma estrutura escolhida pelo objetivo de cada família.
Por que os juros subiram tanto depois da eleição?
O mercado chama de overshooting o movimento que estamos vendo. Funciona como um elástico. Nas últimas semanas, os preços foram esticados numa direção, apostando em outro resultado. Quando a aposta não se confirma, o elástico é solto e não para no ponto em que estava antes: passa dele, para o outro lado, antes de se acomodar.
Por isso as taxas fizeram mais do que devolver a queda das últimas semanas. Elas ultrapassaram os níveis de antes do primeiro turno. O Prefixado 2032 pagava 14,15% em 2 de outubro, último pregão antes da votação, e abriu esta segunda 1,63 ponto acima disso. O IPCA+ 2050 saiu de IPCA+7,06% para IPCA+7,64%.
Dois movimentos se somam. Quem estava posicionado para o outro cenário precisa desfazer as posições ao mesmo tempo, e a porta de saída é sempre mais estreita que a de entrada. Além disso, o preço de antes do primeiro turno ainda embutia alguma chance de troca de governo, que agora deixou de existir. O ponto de partida já carregava uma aposta, e o ajuste precisava ir além dele.
"Embora o ponto médio do arco descreva melhor onde o pêndulo está na média, na prática ele passa muito pouco tempo ali. Quase sempre está se movendo em direção a um dos extremos do arco ou se afastando dele."Howard Marks · memorando "The Happy Medium", Oaktree Capital · 2004 (tradução livre)
O que vai definir a queda dos juros daqui para frente?
Daqui em diante, tudo depende da política fiscal. O arcabouço fiscal perdeu credibilidade porque as metas não vêm sendo cumpridas, e a dívida bruta do governo geral saiu de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 82,9% em agosto de 2026, segundo o Banco Central. O ceticismo é grande. Por outro lado, o governo sabe que não pode abrir uma guerra com o mercado.
Nosso cenário é de taxas oscilando perto das máximas até haver uma sinalização fiscal consistente. Uma melhora parcial deve vir nas próximas semanas, à medida que o mercado desfizer as apostas feitas às vésperas da eleição.
A reunião do Copom de 4 de novembro não deve ser o fator principal, porque afeta mais os juros de curto prazo. O que move os juros longos é a condução fiscal: quem comandará o Ministério da Fazenda, incluindo a possibilidade já especulada de o vice-presidente Geraldo Alckmin assumir a pasta, e qual compromisso será assumido para 2027. Um nome com credibilidade ajuda, mas o prêmio de risco só cai de forma duradoura com medidas concretas que estabilizem a dívida. Sem elas, uma crise mais profunda, como a de 2015, não pode ser descartada.
Dois pontos seguem no radar. O dólar mais alto pressiona a inflação, e haverá troca de diretores no Banco Central a partir de 2027. Os dois aumentam a incerteza sobre os juros dos próximos anos, e é essa incerteza que hoje está no preço dos títulos longos.
Vale a pena vender o Tesouro IPCA+ que caiu?
A marcação a mercado é o preço pelo qual o título seria vendido hoje. Quando a taxa sobe, esse preço cai, e o extrato mostra a diferença. Essa oscilação só vira perda para quem vende antes do vencimento. Quem leva o título até o fim recebe exatamente a taxa contratada na compra.
Carregando o título por cerca de 2 anos, as perdas tendem a ser recuperadas, o que pesa pouco num título de 25 anos. Por isso, para quem tem objetivo de longo prazo e um vencimento casado com ele, a recomendação é manter. A venda só faz sentido para quem vai precisar do dinheiro antes do vencimento, e nesse caso o ajuste necessário está no descasamento entre o prazo do título e o prazo do objetivo.
Há um ponto que costuma passar despercebido. O que define um objetivo como a aposentadoria é o volume necessário para sustentar uma determinada renda. Quando o juro real sobe, esse volume necessário também diminui, porque cada real passa a render mais.
Mesmo com a desvalorização momentânea da carteira, o objetivo pode estar mais perto hoje do que estava na sexta-feira.
Quanto a alta do juro real muda o resultado de um objetivo?
Para quem tem recursos novos, a diferença é expressiva. Na segunda, o IPCA+ 2032 chegou a pagar IPCA+8,10% na abertura e estava em IPCA+7,80% na última atualização antes de o Tesouro suspender as negociações. Na sexta, o IPCA+ 2050 pagava IPCA+6,42%.
A cada R$ 100 mil aplicados por 20 anos, a IPCA+6,42% chega-se a cerca de R$ 347 mil em poder de compra de hoje, antes do IR. A IPCA+7,80%, chega-se a R$ 449 mil. São R$ 102 mil a mais, quase 30% de patrimônio adicional, para o mesmo objetivo e sem nenhum aporte extra.
A linha de quem já tinha o título começa abaixo por causa da marcação de hoje e encontra, no vencimento, exatamente o valor contratado. A distância que sobra entre as duas pontas é o que a taxa mais alta entrega para quem aplica agora.
Como estamos posicionando as carteiras na Akros
Essa leitura se traduz em quatro movimentos nas nossas recomendações:
- Mais pós-fixado de alta qualidade. Títulos públicos atrelados à Selic e emissores de primeira linha. Com a Selic em 13,75%, essa parcela remunera bem enquanto o cenário se define, sem oscilação, e cumpre o papel de caixa para o que pode ser necessário nos próximos anos.
- Mais proteção contra a inflação, com títulos públicos. Com o juro real nesse patamar, travar ganho acima da inflação nos prazos dos objetivos de longo prazo é capturar um nível difícil de se sustentar por muitos anos. Fazemos isso com risco soberano, seja pelo Tesouro Direto, por ETFs ou por previdência, e a estrutura de cada família é definida caso a caso, considerando o objetivo, o prazo e a tributação. Um primeiro movimento já faz sentido, e o restante entra em etapas. Seguimos evitando prefixados: sem um arcabouço fiscal crível, travar uma taxa nominal exige acertar a inflação, e esse é hoje o ponto de maior incerteza.
- Redução expressiva de crédito privado. Acreditamos que o risco de inadimplência das empresas vai aumentar. Juro alto por mais tempo, câmbio depreciado e economia perdendo fôlego pressionam o caixa de quem tem dívida. A forma de sair importa: cada resgate é analisado individualmente, considerando o prazo de cotização e a liquidez dos fundos, o deságio na venda antecipada de títulos, o impacto tributário e eventuais carências. Em alguns casos, levar o título até o vencimento custa menos do que vender agora, e a decisão é tomada ativo por ativo.
- Mais alocação internacional, com cuidado e planejamento. Reduzir a concentração de risco no Brasil e assumir mais risco no exterior é o movimento estrutural correto, e a forma importa tanto quanto a decisão. O câmbio acaba de subir com força, então as entradas são escalonadas. A estrutura é definida caso a caso, entre conta no exterior, ETFs ou fundos, considerando a tributação de cada caminho. A parcela internacional é dimensionada pelos objetivos, sobretudo os que têm custo em moeda forte, e o planejamento inclui o câmbio, as remessas e a movimentação entre instituições no Brasil e no exterior.
Também não vemos a queda da bolsa brasileira como oportunidade automática de compra. Depois de cair, ela pode permanecer em um patamar mais baixo por bastante tempo, porque o que mudou foi o cenário dos próximos anos.
O que fazer nas próximas semanas
As próximas semanas serão de muita oscilação, para os dois lados. Nesse ambiente, seguir a estratégia vale mais do que acertar o dia de cada movimento. O erro mais caro é abandonar o plano no meio do caminho e transformar oscilação em prejuízo.
Antes de olhar o extrato desta semana, faça um exercício sozinho: liste cada título da carteira ao lado do objetivo que ele financia e da data em que esse dinheiro será usado. Onde o vencimento cabe dentro do prazo do objetivo, a marcação negativa de hoje não muda o resultado. Onde não cabe, existe um descasamento que precisa ser corrigido com calma, ativo por ativo, sem pressa de pregão.
O elástico ainda vai oscilar algumas vezes antes de se acomodar. Quem tem cada título casado com um objetivo atravessa esse período decidindo com a cabeça fria.
Glauber Sá é Estrategista Financeiro, CFP e Consultor CVM, fundador da Akros Consultoria de Investimentos, consultoria independente registrada na CVM.