Como o CDI pode estar atrapalhando a performance da sua carteira!

Vista de dentro do carro para uma estrada aberta entre montanhas ao pôr do sol, com o retrovisor mostrando o caminho que ficou para trás

A pergunta que domina as reuniões de acompanhamento no Brasil é sobre o passado, e nenhuma decisão tomada ali muda a resposta. Pior: ela mede objetivos diferentes com a mesma régua. Quase meio século de psicologia econômica explica por que isso incomoda tanto.

A pergunta que mais aparece nas reuniões de acompanhamento é sempre alguma variação da mesma: quanto a carteira rendeu acima do CDI? É assim que o investidor brasileiro aprendeu a saber se a carteira está indo bem.

É legítimo comparar o resultado com aquilo que o mercado brasileiro trata como taxa livre de risco. Mas repare no que essa pergunta tem de peculiar: ela é inteiramente sobre o passado. Nenhuma decisão tomada naquela reunião altera uma vírgula da resposta. A energia gasta explicando o retrovisor é energia que não foi gasta na única coisa que ainda está em aberto, que é o caminho à frente.

E o problema não para no foco. A régua do benchmark fabrica emoções desconectadas da realidade patrimonial de quem investe.

O CDI não responde se a carteira está indo bem. Cada objetivo tem uma régua própria: poder de compra em dólar para o gasto no exterior, ganho real para a independência financeira, taxa travada para um compromisso com data, fluxo de renda para quem vive de renda. Medir todos pelo CDI inverte o sinal de quem deveria comemorar.

Bater o CDI significa que a carteira está indo bem?

Não. E o Brasil já provou isso nos 2 sentidos, com números oficiais.

Em 2021, o CDI rendeu 4,42% no ano e a inflação oficial foi de 10,06%. Uma carteira que entregou 110% do CDI, resultado que qualquer relatório celebraria, rendeu cerca de 4,9%. Descontada a inflação, o investidor perdeu 4,7% de poder de compra com um resultado acima do CDI.

Agora olhe os 12 meses encerrados em agosto de 2026. O CDI acumulou 14,63% e a inflação ficou em 4,22%. Uma carteira que entregou 90% do CDI, o tipo de número que transforma a reunião de acompanhamento num interrogatório, rendeu cerca de 13,2%. Descontada a inflação, ganhou 8,6% de poder de compra real.

O investidor de 2021 saiu da reunião satisfeito e mais pobre. O de 2026 sai incomodado e bem mais rico. O que ele vê é 90% do CDI, e a conversa inteira se organiza em torno dos 10% que faltaram, um número que não moveu nenhum objetivo da vida dele.

Se a pauta fosse o avanço rumo às metas, os papéis se invertiam. O investidor de 2026 é quem tem motivo para comemorar: o dinheiro dele comprou mais vida. O de 2021 bateu o índice e andou para trás.

A régua errada não é só desconectada do seu patrimônio. Ela inverte o sinal de quem deveria estar satisfeito.

Gráfico comparando inflação e rentabilidade de carteiras em percentual do CDI: em 2021, 110% do CDI rendeu 4,9% contra inflação de 10,1%, ganho real negativo de 4,7%; nos 12 meses até agosto de 2026, 90% do CDI rendeu 13,2% contra inflação de 4,2%, ganho real de 8,6%
CDI e IPCA oficiais do ano de 2021 e dos 12 meses até agosto de 2026. Carteiras hipotéticas a 110% e 90% do CDI. Ganho real bruto, antes de imposto de renda.

Cada objetivo tem a sua própria régua

O erro mais caro não é comparar a carteira com o CDI. É comparar tudo com a mesma coisa.

Uma família com 4 objetivos diferentes tem 4 réguas diferentes, e nenhuma delas é intercambiável.

O objetivo que vive em moeda forte. Uma viagem longa, um período morando fora, a faculdade do filho no exterior. O gasto vai acontecer em dólar, então a régua é o poder de compra em dólar. Uma carteira que rendeu 15% em reais num ano em que o dólar subiu 20% bateu o CDI com folga e ficou mais longe da faculdade. Aqui, ganhar do CDI não significa absolutamente nada.

O objetivo de independência financeira. Prazo longo, sem data rígida, com uma exigência só: que o dinheiro compre no futuro mais vida do que compra hoje. A régua é o ganho real, o retorno acima da inflação. Quanto maior o ganho real, melhor, e o CDI nominal não informa nada sobre isso.

O compromisso com valor fixado numa data futura. Uma dívida contratada, a última parcela de um imóvel, um pagamento que você já sabe que será de X reais em tal mês. A régua é a certeza, não o retorno. Travar a taxa em um ativo pré-fixado casado com o prazo pode resolver o objetivo inteiro. Nesse caso, oscilar acima ou abaixo do CDI no meio do caminho é ruído: o que importa é o dinheiro estar lá, no valor exato, na data exata.

O objetivo de gerar renda. Aqui a régua é o fluxo, não a cota. Se a renda mensal cresce e se torna mais previsível, a oscilação do principal importa muito menos. O investidor que vive de renda e acompanha a cota corre o risco de vender justamente o ativo que estava fazendo o trabalho que ele contratou.

Objetivo A régua correta Por que o CDI falha
Gasto no exterior Poder de compra em dólar Render 15% em reais com o dólar subindo 20% afasta a meta
Independência financeira Ganho real sobre a inflação O CDI nominal não informa quanto poder de compra foi criado
Compromisso com data e valor Taxa travada até o vencimento Oscilar contra o CDI no caminho é ruído, não risco
Geração de renda Fluxo previsível e crescente Medir pela cota induz a vender o ativo que gera a renda

Classes de ativos citadas em caráter educacional, para ilustrar a relação entre objetivo e régua. Não constituem recomendação de compra ou venda.

Quatro objetivos, quatro réguas, e o CDI não é a resposta de nenhum dos quatro.

Isso não quer dizer que o CDI não sirva para nada. Ele é a régua correta de 1 objetivo específico: a reserva de curto prazo, onde liquidez imediata e ausência de surpresa são o próprio objetivo. O problema nunca foi o CDI. O problema é usar a régua da reserva de emergência para medir a aposentadoria, a faculdade no exterior e a renda mensal ao mesmo tempo.

E há um caso em que a régua errada chega a inverter a leitura por completo.

O investidor que sempre gostou de comprar títulos a IPCA mais 6% encontra hoje o mesmo título ofertado a IPCA mais 8%. Pelo retrovisor, ele está irritado, porque a posição antiga marcou negativo na cota. Pela régua do objetivo, ele deveria estar animado: nunca foi tão barato financiar as metas de longo prazo, e cada aporte agora trava um juro real que o plano original nem exigia. Já tratei dessa janela em detalhe no artigo sobre CDI e IPCA.

A mesma janela que machuca a cota de hoje é a que antecipa o objetivo de amanhã.

Por que a régua errada incomoda tanto

Aqui está a parte que a indústria demorou demais para entender. A irritação do investidor não é falta de educação financeira. É a cabeça dele funcionando exatamente como a cabeça humana funciona.

Em 1979, Daniel Kahneman e Amos Tversky mostraram que as pessoas não avaliam resultados em termos absolutos, e sim como ganhos e perdas contra um ponto de referência. Em 1985, Richard Thaler descreveu o mecanismo que organiza isso no dia a dia e batizou de contabilidade mental: ninguém trata o dinheiro como uma massa única. As pessoas separam por destino, mentalmente, e cobram de cada bolso uma coisa diferente. Kahneman recebeu o Nobel de Economia em 2002. Thaler recebeu em 2017.

Em 2000, Hersh Shefrin e Meir Statman levaram isso para dentro da carteira, na Behavioral Portfolio Theory. A tese: o investidor não constrói uma carteira, constrói camadas. A base existe para evitar desastre. As camadas de cima existem para buscar mais. Cada camada tem seu propósito e sua tolerância própria a risco, e é por isso que o mesmo investidor aceita tranquilamente uma queda de 20% na parte que é para dentro de 15 anos e não aceita 2% de oscilação na parte que é para dezembro.

Não é comportamento de amador. É como o próprio criador da teoria moderna de carteiras resolveu o problema quando ele era o cliente.

"Eu visualizei o meu desgosto se o mercado de ações subisse muito e eu estivesse fora dele, ou se caísse muito e eu estivesse inteiramente dentro. A minha intenção era minimizar o meu arrependimento futuro. Então dividi as minhas contribuições 50/50 entre renda fixa e ações."Harry Markowitz, sobre como alocou a própria previdência nos anos 1950 · entrevista a Jason Zweig, Money Magazine, janeiro de 1998 · tradução livre

Repare no que essas descobertas dizem juntas. A estratégia por objetivos não inventou nada. Ela apenas organizou, com método, o que a cabeça do investidor já fazia sozinha e escondida. Quem demorou a transformar isso em processo foi a indústria, que passou décadas tratando contabilidade mental como um viés a corrigir, em vez de uma arquitetura a aproveitar.

Separar a carteira por objetivo custa retorno?

Essa é a objeção técnica honesta, e ela tem resposta publicada.

Em 2010, Sanjiv Das, Harry Markowitz, Jonathan Scheid e Meir Statman testaram exatamente isso no Journal of Financial and Quantitative Analysis. Eles definiram risco como a probabilidade de não alcançar o patamar exigido por cada objetivo e mostraram que a carteira agregada, formada pela soma dos subportfólios de cada meta, é eficiente em média e variância. Ou seja: organizar por objetivos não joga retorno fora.

O detalhe que fecha o argumento é a ordem de grandeza. Com a restrição de não vender a descoberto, a perda de eficiência dos subportfólios fica em 12 pontos-base. A perda provocada por errar a aversão a risco do investidor fica entre 5 e 40 pontos-base.

Errar o perfil de risco do cliente custa mais que o triplo do que custa organizar a carteira por objetivos.

E errar o perfil é precisamente o que um questionário genérico de 10 perguntas faz todos os dias neste país. Markowitz, o pai da fronteira eficiente, assina esse paper. Se a pergunta for se isso derruba a fronteira eficiente, a resposta está no artigo em que tratei das diferenças entre alocação por objetivos e alocação tradicional.

O painel que fica acima de todas as réguas

Se cada objetivo tem uma régua própria, aparece um problema prático: como comparar o avanço de metas medidas em unidades diferentes? Poder de compra em dólar, ganho real, taxa travada e fluxo de renda não somam.

É aqui que a estratégia por objetivos troca o instrumento de navegação. O painel deixa de ser a rentabilidade contra o benchmark e passa a ser duas coisas.

A primeira é quanto de cada meta já está garantido: do que aquele objetivo vai exigir no futuro, quanto o capital de hoje já cobre (o que o mercado chama de funding ratio). A segunda é a probabilidade de sucesso de cada objetivo.

Esses dois indicadores funcionam para os 4 objetivos da tabela, independentemente da régua de cada um, porque ambos são expressos em percentual da meta, não em pontos de rentabilidade. É a única leitura que permite olhar a faculdade no exterior e a aposentadoria na mesma tela.

E eles têm uma propriedade que o retrovisor nunca terá: respondem a decisões. Aumentar o aporte aumenta o quanto está garantido. Adiar a meta em 2 anos move a probabilidade. Travar juro real hoje move as duas. Comparar a carteira com o CDI do semestre não move nada, porque o semestre já aconteceu.

Comparação entre o extrato tradicional, que mostra apenas 104% do CDI, e o painel por objetivos, que mostra quanto está garantido de cada meta: faculdade no exterior, aposentadoria, quitação do imóvel e renda mensal
À esquerda, o que o extrato mostra. À direita, o que decide a sua vida. Números ilustrativos.

Enquanto um profissional gasta a reunião justificando por que não superou o CDI, um estrategista está olhando o que o mercado oferece agora para o cliente chegar antes do prazo.

Ninguém dirige olhando o retrovisor

Ele existe, é consultado, tem função. Mas direção, velocidade e destino se decidem pelo para-brisa.

Uma carteira não deveria ser conduzida de outra forma. E a conta de trocar o painel é mais barata do que parece: não custa retorno, custa disposição para escrever os objetivos.

Trocar de painel começa por enxergar a carteira inteira de uma vez: a consolidação do patrimônio em uma visão única e, a partir dela, uma carteira desenhada pelos seus objetivos com as Recomendações GBI.

Antes da sua próxima reunião de acompanhamento, faça sozinho um teste que não depende de ninguém. Escreva os seus 3 objetivos maiores, com valor e com data. Ao lado de cada um, escreva a régua correta dele: dólar, inflação, taxa travada ou fluxo de renda. Depois pergunte quanto de cada um já está financiado.

Se você não consegue responder isso, o número que você acompanha há anos não é o número que decide a sua vida.

O CDI vai continuar existindo, e vai continuar sendo a régua certa de uma parte pequena do seu patrimônio. A pergunta que fica é quantos dos seus objetivos estão sendo medidos por ele sem nunca terem pedido isso.


Fontes

  1. Kahneman, D. e Tversky, A. Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. Econometrica, 1979.
  2. Thaler, R. Mental Accounting and Consumer Choice, 1985. Ver também o documento científico do Nobel de Economia de 2017.
  3. Shefrin, H. e Statman, M. Behavioral Portfolio Theory. Journal of Financial and Quantitative Analysis, 2000.
  4. Das, S., Markowitz, H., Scheid, J. e Statman, M. Portfolio Optimization with Mental Accounts. Journal of Financial and Quantitative Analysis, 2010. Resumo do CFA Institute.
  5. Zweig, J. What Harry Markowitz Meant, com a entrevista publicada na Money Magazine em janeiro de 1998.

Glauber Sá é Estrategista Financeiro, CFP e Consultor CVM, fundador da Akros Consultoria de Investimentos, consultoria independente registrada na CVM.